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ARTE Gerson Pompeu Pinheiro Trazemos
uma contribuição que não tem sentido meramente opinativo. Fundamentamos
este pronunciamento com exemplos que demonstram a construção de um raciocínio
lógico. Fixemos, pois, os conceitos e estabeleçamos as premissas para
que possamos edificar sobre bases sólidas que nos conduzam a transparentes
conclusões. Vejamos, de início, o que se deve entender por artes plásticas.
Artes Plásticas são aquelas que se utilizam da forma para realizar as
suas obras. Assim, a esse domínio pertencem: a arquitetura, a pintura,
a escultura e muitas outras que, de algum modo, estão ligadas às três
citadas. Arquitetura é a arte de limitar o meio ambiente, para construir
o abrigo do homem. Pintura é a arte que emprega formas e cores, com o
objetivo de criar, em duas dimensões, uma certa harmonia na superfície
limitada do quadro. Escultura é a arte que emprega a forma visando a criação
de harmonias em três dimensões. Aqui analisaremos apenas a Pintura, uma
vez que ela é suficientemente expressiva para demonstrar o nosso pensamento.
A obra de arte na Pintura, depende de dois fatores: do seu criador e dos
materiais que ele emprega. Não iremos, desde logo, considerar as características
estéticas da Pintura, para as quais contribui, decisivamente, o artista
criador. Começaremos pela análise dos materiais empregados e dentre eles
focalizaremos, em primeiro lugar, o suporte ou seja, a superfície material
que recebe a pintura. É bem de ver que, varia desde a superfície
rústica das cavernas, onde o artista pré-histórico registrou imagens de
animais e de homens, até o quadro, de tela, de madeira, de fibra ou de
metal. Para delimitar a forma bidimensional, foram empregados pigmentos
orgânicos ou minerais, veiculados através de substâncias líquidas ou pastosas,
colas, óleos ou graxas, aplicadas por meio de instrumentos auxiliares,
tais como pincéis, espátulas, estiletes, ou, diretametne, com os dedos,
em certos casos. Dispondo desses recursos, o homem, desde as mais remotas
eras, ornamentou superfícies ou registrou fatos através da imagem de seres
vivos ou de objetos inanimados. Surge, neste ponto, a necessidade de se considerar a real natureza de imagem desenhada ou pintada. A imagem de um objeto, vivo ou não, é mera convenção, é um sinal ou símbolo que serve para representar algo que não está presente. Pode-se representar uma esfera de várias formas:
Esta demonstração foi sugerida pela leitura
de “Qu’est-ce que la Peinture”de Jean d’Udine. Assim, reconheçamos que
a Pintura nunca chegará a substituir o objeto, tal seja a sua fidelidade
à realidade visual. Por maior que seja a ilusão da luminosidade de uma
chama pintada ela jamais terá condições para iluminar um ambiente mergulhado
em trevas. Geralmente, o grande público não iniciado em Pintura, considera
que a sua boa qualidade depende do grau de identidade que ela apresenta
com a realidade aparente. Que um cristal seja transparente e sonoro como
original, que uma seda sugira a maciez de sua textura, que um mármore
pareça frio como o modelo, que uma rosa nos dê a impressão de que exala
perfume, que uma chama cheque a queimar os objetos que dela se aproximem,
que uma figura retratada, só falte falar... Ninguém poderá negar o merecimento
do pintor, capaz de realizar tais artifícios, mas, isso não é o ideal
a ser visado na arte da Pintura. O quadro deve interessar como criação,
para a qual o assunto valeu apenas como um pretexto. Estabelecida assim, de modo bem claro,
a premissa de que a obra de pintura figurativa ou representativa, ainda
que, sem pretensões artísticas, é apenas um símbolo do objeto por ela
representado, consideremos o elemento criador da obra, o homem, e analisemos
as suas condições para atuar como um agente capaz de suscitar emoções
àqueles que lhe contemplam a realização ou de transmitir a outrém as suas
próprias. Para que uma pintura ganhe a condição de obra de arte, não basta
que ela bem represente o objeto pintado, é mister que haja muito mais,
que ele, o objeto seja apenas um meio capaz de conduzir ao fim em vista. Em que consiste esse fim? O que é arte? Arte, no sentido a que nos referimos é
atividade criadora por excelência. Como diz Lionelo Venturi, “o valor
de um quadro não depende do objeto representado (natural ou ideal) e sim
da tarefa a que ele se propôs”. Antes de existir como realidade “quadro”
a obra de arte já vivia, em essência, na sensibilidade do seu criador.
É por isso que, em geral, o artista nunca se satisfaz com a sua obra,
eis que ao passar da essência para a existência, há uma perda; em linguagem
teológica diríamos há o sacrifício da encarnação. Já afirmamos, em outra oportunidade: “Arte é pura manifestação de Deus”. De acordo com esse pensamento, o artista atua mais como um instrumento, executa apenas a obra que emana da Realidade Cósmica, expressa em Beleza. De sorte que, obra de arte inspirada é aquela que salta do primeiro para o quarto passos. Da emoção para a realização. O artista motivado por determinada emoção, encontra imediatamente a expressão plástica capaz de traduzí-la. O pensamento central desta aula é expresso, pela afirmação: “Arte é uma realidade fora do tempo e do espaço”. Evidentemente, ele é corolário daquele outro em que afirmavamos: “Arte é pura manifestação de Deus”. Sendo Deus a Realidade Infinita e Universal e a Arte sua pura manifestação, ela como Deus, escapa às categorias de tempo e espaço. |