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O RETRATO Afirma-se, levianamente, que “a fotografia, principalmente a colorida, matou a pintura do retrato”. Nada mais falso e improcedente, mesmo que venha sob o amparo de um nome como L’onelo Venturi, que, embora dotado de singular talento crítico, cometeu esse equívoco em seu livro “Para compreender a Pintura, de Giotto e Chagall”. Matteo Marangoni em “Saper vedere”, depois de incidir no mesmo erro, oferece, ele mesmo, a resposta mais expressiva que já encontramos, a tal afirmativa. Diz: “Entre uma natureza morta de Chardin, de Veermer, ou até do mais meticuloso flamengo e a fotografia, haverá sempre um abismo, o abismo que separa a matéria do espírito e que a arte, contudo, sabe tão miraculosamente vencer”. Para melhor evidenciar a verdade interrogaríamos: como explicar fotografias de indivíduos, nas quais não se encontra a esperada semelhança? Não foram colhidas pela máquina, sem outra intervenção humana além do disparo do obturador? Resultaram da exposição da placa aos raios luminosos provenientes do retratado.Submetida à revelação, fixação e finalmente à impressão, surge a fotografia, em preto e branco ou em cores, e muitas vezes a decepção, porque ela não se parece com o retratado. É que o homem, complexo de espírito e matéria, não pode ter a sua figura colhida apenas pelo registro instantâneo de um dos infinitos aspectos de sua imagem física. A máquina não tem meios para lobrigar os meadros de seu espírito, além de ficar adstrita ao flagrante que a abertura de segundos, do obturador, oferece através da objetiva à passagem dos raios luminosos que irão impressionar a placa sensível. Enquanto que o trabalho do retratista pintor resulta de uma convivência com o modelo, de algumas poses que duram horas. O modelo se revela ao artista, não apenas em sua imagem externa, mas, acaba oferecendo-lhe os pormenores de sua individualidade espiritual interna. O retrato pintado do natural, é a soma de diferentes imagens físicas e é um resumo da imagem espiritual do retratado. A fotografia é conseqüência do flagrante analítico. O retrato pintado é a expressão global de uma individualidade é uma verdadeira síntese. Há que considerar ainda, que, na fotografia se realiza, mecanicamente, o artifício da Perspectiva geométrica, isto é, o objeto (retratado) é visto de um só ponto de vista imóvel, o ponto de convergência dos raios luminosos, decorrnete dos efeitos da lente objetiva. No retrato pintado, além de haver dois pontos de vista, visão binocular, há que considerar que os olhos não observam sempre o mesmo ponto do modelo; olham para cada pormenor que está sendo pintado, a boca, o nariz, os olhos, o cabelo e, a cada visada corresponde, teoricamente, uma imagem que é oferecida ao cérebro do pintor. É a soma de tudo isso que acaba se fixando no retrato pintado. Portanto, despreocupemo-nos da leviana afirmação dos que pensam que a fotografia pode substituir o pintor de retratos. Por maior que seja o nosso avanço nos domínios da ciência e da técnica, nunca nos será dado infundir as características da consciência humana aos engenhos mecânicos, criados pela inteligência. |