ATRIBUTOS DE UMA BOA PINTURA
UM ESTUDO COMPARATIVO

     Para a realização de um estudo comparativo em profundidade, sobre a constância de determinados atributos na boa pintura, de todos os tempos, mistér se faz considerar a grande diversidade de gêneros que ela aborda. Em primeiro lugar poderemos desde logo, estabelecer a divisão em dois campos: o da pintura como arte autônoma e o da pintura como decoração. Entendemos pintura como arte autônoma aquela que é feita com o propósito de constituir-se num fim em si mesma e, assim, conforme o assunto ela pode dar lugar à seguinte classificação:

Grande composição presente a figura humana; compreendendo a pintura mitológica religiosa, histórica, de gênero e de costumes;

  • retrato - em grupo ou isolado;
  • animais - no ambiente natural ou fora dele;
  • natureza - incluindo a paisagem (rural ou urbana)e a marinha;
  • natureza morta - constituída por vegetais, animais mortos, objetos quaisquer etc.

    Na pintura decorativa existem diferentes modalidades que são distinguidas em função do motivo que pode ser:

  • Figura humana animal (fauna)
  • Vegetal (flora)
  • Geométrico abstrato
  • Informal (abstrato)

      Por vezes, se torna difícil identificar a obra como pertinente a este ou aquele grupo, porque o artista pintor é sempre um intérprete e, conforme o grau de liberdade de que usa, a obra se aproxima ou se afasta da decoração. Vale assinalar ainda que, em toda a história da arte, só existem duas modalidades de pintores: os objetivistas e os subjetivistas. Os primeiros são também denominados realistas em oposição aos segundos que se intitulam idealistas. Há que considerar ainda, que um mesmo artista pode oscilar de um para outro terreno, em função do assunto de que se vai ocupar. É interessante assinalar que, em geral, a pintura decorativa é feita para ornamentar determinada superfície de parede (mural) ou enriquecer a de um objeto; enquanto que a outra modalidade que chamamos pintura autônoma surge para a vida, liberta dessa vinculação, vai para qualquer ambiente, havendo numerosos casos em que o ambiente é que se subordina à pintura que nele se vai alojar.

Constantes e Variáveis

     Na obra de arte de pintura há certas características que lhes garantem a perenidade, através o tempo, são as constantes. Em antinomia, outras há que lhe asseguram a posição no efêmero do meio e da época, são as variáveis. Aquelas lhe permitem a presença no cenário das grandes criações enquanto que estas têm apenas o mérito de situá-las geográfica e cronologicamente. Comparando com as realizações do pensamento, diríamos que no domínio das constantes situam-se as idéias e, no das variáveis a linguagem que serve para veiculá-las.

As Constantes

     Para melhor demonstrar a procedência de nossa afirmativa, de que arte é uma criação válida em qualquer época ou lugar, busquemos os atributos constantes a serem encontrados na Pintura. Pela ordem da importância assinalaríamos:

  • Composição
  • Originalidade
  • Expressão plástica como pintura
  • Realização técnica
  • Composição é o domínio da pura criação.

      Não se pode elaborar uma espécie de código, breviário normativo da boa composição uma vez que o êxito no assunto pode ser alcançado por diferentes caminhos. Os teóricos da estética, têm realizado pesquisas que visam a demonstrar a constância de certas proporções ou a presença de determinadas construções geométricas, no lineamento estrutural de obras de todos os tempos. Não negaremos a significação de tais pesquisas, entretanto, preferimos, nesta oportunidade, assinalar uma característica que é infalível em referência à composição. Compôr quer dizer organizar, no sentido de assegurar a plena autonomia vital da obra, ela adquire vida própria e, como tal, não pode sem grave prejuízo, ser mutilada ou receber acréscimos. Um quadro está bem composto quando não se lhe pode suprimir ou acrescentar coisa alguma, seja no tema pintado, na forma ou nas suas dimensões.

     Originalidade é condição de alto mérito em se tratando de artes; já se tem assinalado, que dentre os inúmeros espécimes do gênero humano não existem duas criaturas que sejam iguais. Sendo obra de criação, a de arte tem na originalidade um dos atributos de maior valia.

     * Expressão plástica como pintura - Para ficar estritamente dentro de seus limites, um quadro deve nos interessar como tal. Isto é, se ele despertar o desejo de conhecer o ambiente nele representado, se ele tiver capacidade para despertar sentimentos eróticos, místicos ou poéticos ou se ele estiver a servico de uma doutrina política ou social, poderá ser, além disso, obra de arte, mas estará desviado de seus verdadeiros fins. O conhecedor de Pintura, encontra no bom quadro o seu próprio fim. Ele vale como solução plástica em pintura, e isso já basta. Será suficiente para que se haja realizado um grande nobre fim.

     *Realização técnica - Não devemos ter o tabú do exclusivismo, em nenhum domínio do conhecimento humano, teórico ou prático. Assim, no que tange à técnica, devemos reconhecer que todos os processos e todos os meios são válidos desde que sejam alcançados os fins em vista. O que se deve pretender é que, dentro de determinada orientação de trabalho, a execução seja limpa e franca e que o resultado ofereça condições de perenidade ante a ação devastadora do tempo.

      Mas, além disso, há algo mais que interessa, diretamente, ao profissional e que lhe proporciona uma sensação de prazer. São peculiaridade na solução de determinado pormenor, qualidade de fatura, leveza de toque, espontaneidade ou justeza de pincelada, espécie de textura que desperta certa modalidade de prazer gustativo, (como diz Jordão de Oliveira) de gozo estético do qual só participam os iniciados e os profissionais. Convictos de que, em qualquer lugar ou época, aparecem as grandes obras de arte, vamos analisar algumas para demonstrar que as constantes estão presentes quando elas alcançam aquele alto nível (em breve).