Vida e Arte de Gerson P. Pinheiro STUDIO41 A Figura Humana nas Artes do Desenho
MEDALHA
A medalha é uma pequena peça metálica, geralmente redonda, com
emblemas, figuras ou inscrições impressas.
Possui duas faces e orla; difere da moeda sua co-irmã, no tocante ao seu
emprego meramente comemorativo, ornamental, premial, etc.
Não obstante à existência de medalhinhas de caráter votivo, ou gnóstico,
das fichas de teatro, das peças talismânicas, e até dos medalhões de ouro,
prata e bronze, servindo de dádivas, supõe-se que a antiguidade desconhecesse
a medalha com o caráter que lhe atribuímos hoje, isto é, de peça monetiforme,
diferente do numerário; a própria moeda servia então, de elemento
comemorativo, nela se evocando às vezes, os grandes feitos e fatos da época.
Datam do século XIV, as mais antigas medalhas do Renascimento, talvez
inspiradas nos velhos medalhões romanos.
As efígies de Constantino, e de Heraclius, placas cinzeladas e
justapostas por solda, e as de Marco Sexto e Francisco Novello, medalhas
fundidas por artistas paduanos, são exemplares dessa época.
Entretanto, o verdadeiro criador da medalha e seu maior intérprete, foi sem
contestação, o pintor Vitor Pisano, de Verona, ou “il PISANELLO” como era
chamado; que produziu de 1439 a 1448.
João Paleólogo, Leão d’Este, Francisco Gonzaga e tantas outras personagens
da época foram maravilhosamente retratadas nas medalhas do citado artista, que
as fazia acompanhar de encantadoras alegorias nos reversos.
Esse novo gênero de Arte fez furor na época e foi muito imitado em seguida, até
pelos maiores artistas plásticos contemporâneos.
O advento na Alemanha, de processos mecânicos na fabricação das medalhas,
diminuiu em muito o alto preço desses objetos, mas, também, o seu valor artístico.
Apesar disto, Peter Fischer, Haguenauer e outros artistas alemães, produziram
naquele país, belas medalhas à maneira italiana.
A primeira medalha comemorativa que se presume haja sido feita em França, foi a
da tomada de Bordeus, em 1541.Pouco depois, Ana de Bretanha, e Carlos VIII,
foram retratados em Lião, pelo ourives Louis le Pêre. Após a influência de vários
artistas italianos contratados surge no cenário francês o notável medalhista
Germain Pilon, já em fins do século XVI.
O apogeu porém, da medalha em França realiza-se com Guilherme Dupré, (época
de Henrique IV e Louis XII), concomitantemente como desenvolvimento técnico
dessa arte, devido à Lucas Olivier e Nicolas Briot.
Luiz XIV, grande apreciador de medalhas organizou a “Histoire Métallique”
da França, repertório de medalhas históricas, para cuja orientação aquele
monarca chegou a fundar a Academia das Inscrições.
Apesar desse apoio oficial, a arte da medalha veio a fenecer no século XVIII.
Durante a Revolução Francesa houve um pequeno surto de difusão da medalha por
entre as camadas populares, porém, tornando-a às vezes de caráter
irreverente.
Napoleão Bonaparte protegeu a “Histoire Métallique”, nela fazendo
incluir suas famosas batalhas. David d’Angers, Oudiné, Chaplain, Roty e
outros artistas de destaque, removeram a arte da medalha em França, nos fins do
século passado. Marschall, na Áustria; Saint-Gaudens, nos EE.UU; Mayer nos Países-Baixos;
Romagnole, na Itália; e Girardet no Brasil, muito contribuíram para a difusão
da arte da medalha em nossos tempos.
BAIXO RELEVO (Teoria e histórico) DG Arquitetura
O baixo relevo em geral é o gênero de escultura que abrange qualquer
relevo aderente a um fundo. Para melhor especificação classificam-no de: alto,
médio, baixo, incavado e misto, segundo respectivamente, ele seja todo
destacado, medianamente, apenas perceptível, cavado no fundo, ou a reunião de
todos os gêneros.
Além de servir na ornamentação de inúmeros objetos de uso, tais como: jóias,
anéis, moedas, medalhas, etc., é o gênero de escultura preferido na decoração
das grandes superfícies arquitetônicas, devido à sua superioridade sobre a
estatuária no tocante ao melhor encadeamento de cenas e grupos por ele
tratados. Constitui às vezes autêntica linguagem ornamental figurada com a
qual diversos povos gravaram para a posteridade nos muros de seus templos, palácios,
túmulos, etc., os fatos e pormenores de sua civilização.
Haja vista a decoração dos templos e monumentos do velho Egito, mesmo em
priscas eras, quando o baixo relevo surgia ainda envolto nas roupagens dos hieróglifos.
Luxor, Karnack, Ipsambul, etc., são atestados não só de prodigalidade dos
baixos relevos como até de finura e delicadeza de alguns deles. Causa admiração,
a singeleza dessas figuras hieráticas, com anatomia e perspectiva
convencionais, quase planas, – de
cujos contornos o fundo é abaixado, e às vezes incavado, – realçada de
cores vivas e dispostas em andares à feição dos velhos hieróglifos seus
antepassados.
Nas civilizações do Mediterrâneo Oriental, tanto na Mesopotâmia como no
Egito, o baixo relevo estacionou desde 3.000 A.C., exceção feita da estela
susiana do rei Narâm-Sin, no ano 2.600, marco diferencial dos relevos asiáticos
comparados com os do Egito, isto é: fundo plástico, às vezes paisagístico;
mais realismo e anatomia na estilização das figuras de animais, conforme
verifica-se nos seus touros alados, no leão e leoa feridos de British Museum e
outros.
Existe mesmo, um trecho de cidade representado em perspectiva, num baixo relevo
de Xanto, na Lícia, (V século A.C.). Em Ur, na Caldéia, valiosos exemplares
da torêutica têm sido encontrados ultimamente, acusando o desenvolvimento que
a arte do baixo relevo atingiu entre esses povos, malgrado as intermináveis e
monótonas frisas policrômicas dos desaparecidos palácios de Nínive, Babilônia,
Susa, Korsabad, Persópolis e outras cidades.
Esta arte, mesclando-se com reminiscências da arte grega posterior,
atravessa a Pérsia, e vai tornar-se na Índia e Indo-China, o baixo relevo
confuso e singular de figuras mistas de animais e de homens, algumas de múltiplos
braços como que lembrando seres de pesadelo, que revestem os muros dos palácios
de Angkor, no Cambodge, o pagode de “Crirangam” e outros na Índia.
Da longínqua porém curiosíssima China, onde a torêutica é qualquer coisa de
prodigiosa pela habilidade ímpar de seus artistas, cita-se a impressionante
frisa dos monges budistas da gruta de Longman, maravilhosamente retratados. No
país do Sol Nascente, diz o provérbio nipônico “quem não viu os relevos de
Zingoro, no templo de Niko, ainda não viu nada”, referindo-se à extraordinária
combinação do severo realismo e delicado idealismo de suas figuras,
caracteristicamente budista.
Retornando ao Ocidente, em plena civilização Egéia (? Século A.C.)
encontramos os famosos leões de pedra da porta principal da cidade de Micenas,
atestando seu parentesco hitita. Segue-se a fase estilística do templo de Zeus,
em Olímpia (460 A.C.), em cujas métopas o baixo relevo já obedece às leis da
perspectiva e da anatomia. Mas, onde essa arte atingiu o apogeu, foi em Atenas,
no Partenon. Fídias e seus colaboradores excederam-se no inigualável e
movimentado friso das Panatenéas. Imponente desfile de atenienses em homenagem
a Atenas Partenos, na Acrópole. Causa espanto a acuidade visual daqueles
artistas, os únicos do decorrer da História, que lograram traduzir o aspecto
do tropel e a justeza das atitudes dos cavalos a trote e a galope, somente hoje
em dia comprovado pelo instantâneo fotográfico.
Preso às conveniências da Arquitetura, esses baixos relevos não obedecem às
regras da perspectiva e, segundo alguns autores, eram realçados de cores. Sua Técnica
era do alto, médio, e baixo relevo conjugados.
Na época helenística esteve em voga quadros em baixo relevo representando
cenas campestres com paisagens deliciosamente interpretadas e de perspectiva
exata. Os Romanos, práticos e conquistadores, cobriram de baixos relevos Roma e
alhures, perpetuando seus inúmeros feitos militares e as festas da corte
imperial.
O arco de Antonino, a coluna de Trajano, e o “Ara Pacis”, para não citar
senão alguns de seus relevos, a par das características realísticas deste
povo, confirmam o seu espírito prático e inventivo com o emprego harmonioso de
certas figuras muito relevadas no primeiro plano contrastando com outras de tênue
relevo no fundo.
Com a queda do Império Romano segue-se o período de decadência da Arte no
Ocidente, visto que os Muçulmanos nada acrescentaram ao panorama artístico de
então, a não ser a combinação geométrica dos arabescos.
Entremente, na Pérsia, a dinastia dos Sassânidas cultivava tradições clássicas,
principalmente “Khosroes”, logo porém interrompidas, para ser restabelecida
no XVI século, pelos Sefevis. Somente a partir do XII século é que vemos
surgir no Ocidente, para espalhar-se com vigor e profusão, os baixos relevos
românicos e góticos. E então, quer na França, seu berço, ou na Alemanha, na
Flandres, ou na Itália, por toda a parte eles nos deslumbram pelo sentimento
religioso que traduzem na profusão de peças dos mais variados gêneros de
relevos. Neles, a Arte e a Ciência comprazem-se na interpretação da Natureza.
Longe porém de enfraquecer-se, esse movimento penetrou pelo Renascimento a
dentro ainda com maior desenvoltura devido à eclosão perfeita de todas as
Artes Plásticas e o subido gosto demonstrado pelos grandes Mecenas da época.
Acresce ainda que a Arquitetura reservou, nos interiores dos edifícios, divisões
e locais destinados exclusivamente a motivos em baixo relevo. A riqueza e o
fausto dessa época, aliados a plêiade de seus notáveis artistas, espalhou por
toda a parte maravilhas de relevos, abordados sob todos os aspectos mesmo nos
seus meios mais delicados de expressão, conforme atestam as célebres portas do
Batistério de Florença, de Lorenzo Ghiberti, síntese de todos os progressos
obtidos na arte do baixo relevo durante o Renascimento.
O autor empregou mais de 24 anos para realizá-las e esgotou tudo o que se
poderia conceber em matéria de baixo relevo. Naqueles maravilhosos quadrinhos,
o ponto de vista perspectivo é colocado sempre no alto da composição.
Inúmeras figurinhas estão distribuídas dentro das cenas até perder de vista.
As anteriores são relevadas como estátuas e as últimas apenas delineadas
sobre o fundo, realizando a perfeita fusão da perspectiva matemática com a
perspectiva aérea.
Os séculos XVII e XVIII, apesar do requinte algo frívolo da corte do rei Sol,
e do faustoso e pesado estilo barroco, nada acrescentam de importante na arte do
baixo relevo, o mesmo sucedendo com os magníficos relevos do arco de “l’Etoile”,
no século passado.
Modernamente, está muito em voga o emprego do baixo relevo na decoração
monumental, sem prejuízo de suas inúmeras aplicações habituais. Citaremos a
título de exemplo o célebre monumento de Vittorio Emanuel II, em Roma, onde
Zanelli aplicou o máximo de seu privilegiado talento na execução do soberbo
friso, e, ultimamente, os magníficos do Museu das Colônias, na Exposição
Internacional das Artes e das Técnicas, Paris 1937, obra de M. Janniot, na qual
esse artista, desprezando conscientemente a perspectiva, realiza impressionantes
painéis que atestam o quanto ainda se pode obter nesse famigerado ramo de Arte.
Aqui, mesmo, em nossa Capital, guardando-se as devidas proporções, podemos
citar excelentes obras de Rodolfo Bernardelli, Augusto Girardet, Correia Lima,
Antonino de Mattos, Calmon Barreto e outros e, em S. Paulo, o Grito do Ipiranga
do célebre monumento erguido à nossa Independência.
Dentre os vários autores que escreveram sobre a técnica do baixo relevo
destacam-se no século passado: Standigl e Brucke, que o estudaram
cientificamente e, no Renascimento, Pompônio Gaurico e Lomazzo, na célebre
“Regular legítima”. Infelizmente, não conseguimos consultar essas obras,
mas, recentemente, aqui mesmo, o Prof. Carlos Del Negro, estudou o baixo relevo
à luz da perspectiva cônica, em sua notável tese de concurso para provimento
da cadeira de “Modelagem” da Faculdade de Arquitetura. Apesar dos elementos
teóricos e de certas noções empíricas reinantes nos “ateliers” no
tocante ao achatamento gradativo e proporcional da forma escultórica, existe a
maior liberdade entre os artistas na confecção de seus trabalhos, os quais
parecem obedecer mais à rotina e ao gosto pessoal de cada um do que mesmo a
regras pré-estabelecidas.
Na gravura de pedras preciosas, todos os gêneros de relevos podem ser
adotados, o que não sucede com os relevos destinados à medalha ou à moeda, os
quais devido à técnica da cunhagem por balancim ou prensa, hoje em dia
generalizada, exige formas de contornos ligeiramente biselados para permitir a fácil
saída do cunho, e os relevos distribuídos tanto quanto possível em cone
achatado de vértice central. Na moeda, principalmente, devido à sua produção
em massa (100 por minuto em cada prensa), e ao atrito de seu manuseio,
procura-se evitar o relevo acentuado e a sua incidência nos 2 lados do disco,
além da manutenção da forma lenticular.
GLÍPTICA – (Pedras Preciosas)
A Glípitica é a mais antiga modalidade de Gravura que se conhece e,
conquanto seja ela bastante difundida em nossos tempos, por impossível que pareça,
é uma arte quase desconhecida do público, o qual, não atenta bem em suas
reais características.
A razão disso é como que assente em questão de mera nomenclatura por isso que
usamos a mesma palavra “Gravura” para designar não só os trabalhos da Glíptica
(camafeus, selos, moedas, sinetes, medalhas, etc), como também, os do preparo
de matrizes de impressão de tecidos, alatoados, estamparias, e sobretudo, os
“clichés” de impressão para Artes Gráficas (xilogravura, litogravura,
fotogravura, zincogravura, talho doce) e tantos outros similares hoje em dia
prodigiosamente desenvolvidos e utilizados pela indústria e pela imprensa, e de
tal forma, que a sua profissão parece ofuscar os primitivos processos da Glíptica.
Daí, a confusão entre os vários gêneros de gravura.
Todavia, se considerarmos que os processos da Glíptica têm de comum entre si,
o emprego da Arte do Baixo-Relevo (modalidade própria da escultura), o que não
sucede com os demais gêneros de gravura, então resulta que podemos, a bem da
clareza, classificar especialmente a Glíptica como: gênero de gravura em
baixo-relevo, aplicado às pedras preciosas e variadas matérias, na confecção
de camafeus, entalhes, sinetes, moedas, medalhas, selos, carimbos, etc. Esta, é
também, a opinião de abalizadas autoridades no assunto, tais como: F.
Lenormant, Roger Marx, os Bebellon, e outros.
A palavra Glíptica, (do grego, Gluptikê) quer dizer: gravar, cinzelar, e se
aplica tanto à gravura de pedras preciosas, como também, à gravura de moedas
e medalhas, afirma o famoso “Dictionaire de l’Académie”.
Charles Blanc, em sua célebre “Grammaire des Arts du Dessin”, diz
textualmente: “A la sculpture en bas-relief se rattache la Gliptique, c’est-à-dire,
l’art de graver en relief et un creux, sur pierres fines et sur meteaux”.
Glíptica é pois a arte de gravar em relevo ou em côncavo, pedras preciosas e
metais, além de outras matérias, tais como: concha, nácar, marfim, coral e
outras.
Chama-se ENTALHE, a pedra gravada
em côncavo, a qual, também pode servir de sinete, ou selo, quando o seu
desenho é propositadamente invertido. CAMAFEU é a pedra gravada em relevo. As
pedras mais usuais para camafeus, são as variedades de ágatas de camadas
horizontais e de cores definidas. Para o “entalhe” serve qualquer pedra
monocrômica.
Desde a mais vetusta antiguidade, que o homem se utiliza das pedras preciosas
como ornamento, ou mesmo como marca de autoridade. Os Museus estão repletos de
pedras gravadas oriundas de todas as grandes civilizações do passado.
Entretanto, foi na Grécia, do V ao II século A.C., que as mais belas e artísticas
gemas foram gravadas. Ônatas, Apolônios, Pirgôtelo, e outros fizeram
maravilhas nessa Arte. Mais tarde, Roma, na época de Augusto, atingiu o apogeu
técnico, principalmente, com Dioscórido e seus dois filhos: Ilo e Herofilo.
Com a divisão do Império Romano, seguiram para o Oriente as tradições da Glíptica
romana, continuadas, palidamente, por Bizâncio e Susa, até que, de retorno à
Itália, já no Renascimento, esta difícil arte tomou excepcional
desenvolvimento, e a influência dos artistas italianos, se fez sentir em todo o
mundo ocidental. Michelino, Matteo del Nassaro, e outros, se excederam em perfeição.
No século XVIII, os Sirlet e os Pickler, muito se distinguiram pela finura de
seus camafeus.Na França, Jacques Guay, e mais tarde, Jeuffroy e Adolfo David,
também se notabilizaram na Arte da Glíptica.
Modernamente, Pistrucci, Girometti e os Girardet, na Itália, Tonelier e
Lechevrel na França e Augusto Girardet com alguns discípulos, no Brasil,
continuaram as tradições dessa delicada e aristocrática Arte.
Agora vejamos como se procede para gravar um camafeu: a pedra, previamente
lapidada, é presa num cabo, por meio de lacre; e depois atritada contra
broquinhas semelhantes à dos dentistas, girando na extremidade de um pequeno
torno. O elemento cortante e intermediário, é a pasta feita com diamante em pó
e azeite, com que se unta as brocas. Há brocas de várias formas, segundo o
trabalho a realizar. O polimento é obtido com brocas de madeira, e de estanho e
chumbo, respectivamente, untadas de esmeril e trípole.
Prof. Leopoldo Alves Campos