Meu quarto, para o lazer, é
perfeito, assim como o quadrado e Deus – entendendo-se como lazer todas as
atividades que nos proporcionam prazeres das mais variadas formas. Ele ganha
longe da Floresta da Tijuca – lazer em floresta para mim é coisa de macaco – do
tal Recreio dos Bandeirantes e de Búzios – nem sei onde fica, creio que depois
de duas horas de estrada e uns cinco ou seis engarrafamentos monstruosos em
direção ao calor, isto sem contar com o tumulto da Ponte
Rio-Niterói.
Ecologicamente falando, as vantagens
do meu quarto são inúmeras, a começar pelo clima. Com o ar condicionado no frio
máximo não tomo conhecimento do calor no verão, nem do frio no inverno, devido
às acolhedoras cobertas. O ano todo, não importa a estação, desfruto de um clima
de quarto com ar condicionado. Em matéria de conforto e de segurança só posso
dar nota dez. Não preciso procurar vaga para estacionar – num abrir e fechar de
olhos já estou ali, não pego chuva, não há a menor possibilidade de pivetes
virem me importunar, de me darem um encontrão e saírem correndo com minha
carteira, de pisar em bosta de cachorro, nem de ser surpreendido por uma
passeata de ecologistas desesperados.
E o visual? No vídeo em frente à
cama desfilam as mais lindas mulheres da atualidade – só alugo filmes que tenham
mulheres bonitas e se passem em cenários luxuosos. Em relação à privacidade fico
tranqüilo: só me encontro com quem eu quero (se bem que, às vezes, quem eu quero
não esteja ao eu lado ou se atrase um pouco).
Se, por eu ter dormido tarde na
noite anterior, me vem o sono, basta virar para o lado “dar o meu prefixo e sair
do ar” e depois, ao acordar, voltar a fita do vídeo até onde consigo me lembrar
de ter visto. Aos domingos pela manhã, além de continuar dormindo, como durmo
com a TV ligada, ao acordar tenho as opções de assistir com sonolento interesse
a programas que ensinam como viver no campo, como tratar de animais ou como
proceder na vida de forma a agradar Jesus – aleluia! – isto lendo com uma certa
preguiça as notícias no jornal e sugestões de passeios ao ar livre que jamais
farei.
É um programa totalmente econômico.
Enquanto desfruto dos prazeres de estar no meu quarto, o dinheiro vai rendendo
nas aplicações financeiras, para quando entrar em férias, aí sim, fazer uma
programação fora de casa. Arrumo minhas malas, me despeço do meu quarto e pé na
estrada, ou melhor, pé no céu: vou voando para o aeroporto para viajar para Las
Vegas ou Amsterdã. Já nos feriados longos, não vou ficar enfurnado o tempo todo
no meu quarto, seria demais. Como não há tempo disponível para viagens maiores,
me levanto cedinho (coisa raríssima...) e com cara ainda de sono, mas com muita
animação, vôo para Assunção para jogar nos cassinos, porque já passei da idade
de gastar moeda brasileira – seja que nome tenha – no meu
divertimento.
Mas no Brasil, meu quarto é o meu local
preferido para o lazer.